quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Vinte e nove de Outubro


Todo dia vinte e nove de outubro ele faz aniversário. R. não passou comigo nem um quarto da sua vida mas quando me deixou fez de mim uma mulher presa ao passado.


R. tinha quinze anos a mais do que eu. Sobrevivia da música que assoprava com força num insrumento de madeira.


Nunca compôs uma canção para mim.


Aquele homem mais velho também era pai. Um bom pai. O que me enchia de orgulho mesmo que a sua filha não fosse minha.


Aprendi com R. que na vida é preciso humor. Foi ele quem me ensinou a ser amada. E segui assim - aprendendo - por cinco anos.
Quando R. se foi, fez-se um silêncio.

Desconfio que me traiu. R. traiu os meus planos de menina moça.


A música de R. não foi a trilha sonora da minha vida como esperava.


Desde que nos separamos nunca mais o procurei em seu aniversário. Desde que R. foi para longe de mim nunca mais pronunciei o seu nome curto. Mas me pego sempre a pensar qual canção terá feito R. da vida. Seja ela qual for, depois da partida, aprendi a tocar uma música. E é essa canção que toco no meu violão, a cada dia 29 de outubro, de cada ano que passa.


A de feliz aniversário.






segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Cirque du Soleil


Ele não falava a minha língua. Nem eu a dele. No dia em que França e Brasil se encontraram pela primeira vez entendi o que dizia Piaf sobre o rosa.

Paul Louis tinha vinte e nove anos quando imigrou para o meu país. Eu, trinta.

Encontramo-nos numa noite de domingo, no bairro da Lapa. E vivemos por sete dias sem saber ao certo onde estávamos.

De dia fazíamos planos juntos, e à noite nos pertubava o sono o oceano que existe no mapa.

Uma vez, antes de partir ele esvaziou a mala e pediu que eu me colocasse dentro. Meu corpo latino impediu-me de atender ao desejo daquele homem. A mala foi se embora com Paul, numa tarde de domingo ensolarada, sem eu dentro.

Hoje o meu homem não está mais aqui.

Desde o dia em que Paul Louis se foi, matriculei-me numa escola de circo e tornei-me contorcionista.



























domingo, 6 de setembro de 2009

Física Quântica


Tinha eu vinte e nove anos de idade quando T. me apareceu. Numa tarde de dezembro me convidou para almoçar. Ele tinha outras mulheres aos finais de semana. Eu sempre soube. Também tive outros homens, nas sextas, nos sábados e nos domingos de samba no bairro da Lapa. Vivíamos dessa maneira, um tanto bandida de ser.

Numa segunda-feira o trouxe para casa. Sempre que T.me seguia sentia um frio na barriga como se fosse a primeira vez em que se chega a uma nova escola primária. E vivíamos alí naquele pequeno apartamento no bairro do Leblon algo da ordem da loucura. Física quântica mal explicada e longe de ser compreendida. Fascinante, porém.

Seguimos assim por oito meses do ano.

Um dia o deixei.

T. não podia mais fazer comigo o que a física quântica fizera no primeiro ano do colegial.




domingo, 30 de agosto de 2009

Toilette Feminino


Levou a nova namorada para o trabalho. Colocou- a dentro do escritório e emprestou-lhe um computador para que se distraísse e esperasse, a outra chegar.... A ex-companheira dele chegava à empresa desavisada. Carregava na bolsa a leveza de o ter deixado quando viu a cena pela porta de vidro do escritório. Lá dentro, o ex, a atual, a mão na perna.

A ex nada fez.

O ex acreditava não ter feito nada.

A atual nem desconfiava o quê fazia.

Três seres humanos envolvidos numa única história acabada.

Desperdício de tempo. Desperdício de vidas.

A ex e a atual encontraram-se no toilette feminino. A ex emprestou-lhe a escova para cabelos. A outra ofereceu-lhe um batom para lábios. Saíram juntas pela porta de vidro e seguiram pelo mesmo caminho.

Dotadas de elegância e gentileza uma cedeu a passagem para a outra.

A placa da empresa indicava naturalmente a direção a tomar.

Saída.


sábado, 22 de agosto de 2009

O Brechó


O vestido vermelho de bolinhas brancas estava à mostra na arara do brechó. A etiqueta mostrava o preço: 20 euros. Lá dentro muitas mulheres se aglomeravam, o tocavam, o experimentavam e.... desistiam. A futura dona sabia o valor que teria o seu uso e, resolveu levá-lo. Na mala. Atravessou o oceano e chegou ao Brasil. De lá para cá o vestido permaneceu pendurado no armário sem corpo dentro.

Um dia resolveu usá-lo. Desabotou os botões um a um, dobrou a perna direita e se colocou dentro. Levantou as alças, ajustou a cintura e se olhou no espelho.

Gostou.

Foi para rua trabalhar.

Naquele dia a dona do vestido recebeu um aumento. A partir daí passou a usar vermelho com bolinhas brancas nas mais marcantes ocasiões da vida: o vestido cobriu-lhe a barriga quando chegou à maternidade, esteve na foto do primeiro aniversário do filho, serviu de lenço para enxugar as lágrimas quando se separou do marido.

Numa terça-feira à tarde a dona da peça feminina, não se sabe bem o por quê ,sentiu vontade de entrar no vestido. Mas aquele, parecia um dia comum.

Foi então que o inesperado aconteceu.

Uma xícara de café caiu sobre o tecido. Um estranho a derramou.

Sem querer.

Foi o vestido que quis.

A borra preta misturou-se ao pano vermelho de bolinhas brancas. A vida da dona misturou-se a do desconhecido do café.

Amaram-se loucamente para o resto da vida. Ouvi dizer que fixaram residência na França.

Quanto ao vestido vermelho? Foi vendido a um brechó.

Passei na porta da lojinha outro dia.

Um punhado de mulheres o observavam.

Mesmo manchado, a etiqueta indicava o alto preço daquela peça de segunda mão.

A mais jovem das mulheres contou as moedas e comprou o destino.

Saiu da loja e, sem saber bem o por quê, recebeu naquele dia, um aumento.

















domingo, 9 de agosto de 2009

Jogatina


Toda vez que jogava búzios tinha sempre um que ficava fechado. Os demais, abertos. A mãe de santo que ela tanto confiava disse que no futuro haveria uma tristeza naquela relação.

Andou com a vida e seguiu com o rapaz. Não deu ouvidos.

Soube num dia de sol que o homem por quem ela sempre perguntava e com quem dividia a cama, a comida, o sexo, se dividia também com outra mulher.

De lá para cá, ela nunca mais ligou para a Bahia. Todo santo dia ela própria sacudia os búzios no prato branco e roubava do jogo a favor de sí mesma.

Quinze para o meio Dia


Ganhou um relógio de presente. Tinha a pulseira de couro e os algarismos romanos. O presente veio numa caixa com um bilhete escrito à mão de homem: tempo. Era só o que dizia. Não soube nunca quem lhe enviara presente tão estranho. Usou mesmo assim.

Um dia andando pela rua da Passagem uma menina de uns oito anos lhe perguntou as horas. A mulher vigiada pelo tempo do relógio, olhou os ponteiros e sussurou no ouvido da pequena de chiquinhas: faltam quinze para o meio dia.

Depois disso, olhou o relógio dourado, fez parar as cordas e jogou o tempo no lixo. Nunca mais respondeu a ninguém e nem a sí própria a hora que passava nos dias.

O tempo daquela mulher de trinta anos, naquele dia de sol, na rua da passagem ficou parado numa esquina.


terça-feira, 4 de agosto de 2009

Acontece, mas não se explica


Intuição é propriedade das mulheres. Todas nós sabemos que a temos. Se você sente, um dia se realiza. Toda mulher é um pouco bruxa.

A arte de saber vem de dentro e não se explica. Sabemos quando estamos grávidas. Nem é preciso fazer o teste. Sabemos quando um homem vai nos deixar. Para o bem ou para mal, nós sabemos quando somos traídas.

A intuição, vulgo sexto sentido feminino não tem nada a ver com cismas. Não é porque queremos que a gente prevê a realização daquilo.

A bruxaria é arte antiga. A bruxaria, meu caro, é arte de mulher...

Minha mãe costuma dizer que quando conhecemos o homem da nossa vida, uma revelação acontece.

Aconteceu com ela.

Aconteceu comigo outro dia.

A tal revelação a qual se refere minha mãe, nada mais é do que a intuição feminina. Ela, bruxa mais antiga sabe que quando a gente encontra o pai dos filhos, o amante, o companheiro da vida, algo nos acontece.

Acontece, mas não se explica.

Eles estão desavisados. Eles nem desconfiam...

Ser mulher é, portanto, não anunciar ao outro o destino que se tem. Porque assim quer a vida. Eles não entenderiam.

Intuição feminina....










quarta-feira, 29 de julho de 2009

Anatomia Feminina


Tem uma hora que a gente decide que o corpo é nosso. Não do outro. Começa aí um processo interessante da mulher. Essa guerra entre o que nos foi imposto e o que é de fato, se inicia pelas mãos.

Não pintamos as unhas.

Olhamos para baixo e nos deparamos com o sexo quase nú e não nos reconhecemos. Estipulamos o fim das depilações acrobáticas e voltamos a ser peludas. Voltamos a ser mulher.

A redescoberta do corpo é lenta e complicada.

O espelho nos vigia.

A academia deixa de ser um igreja na qual a gente reza todos os dias pela manhã. A fé agora é maior. Em sí.

Ingerimos pedaços grandes de pão. E depois, a gente dá descarga. É o fim da prisão de ventre. A gente não se preocupa mais com a barriga.

O corpo é nosso.

É a gente que manda.

Mas o espelho nos vigia.

Chega um dia, porém, que a gente divide ele com o outro. A gente cede. A gente recebe visita.

Há na anatomia feminina uma porta de entrada sabe se lá para onde... Mas agora, ao menos, ela tem cortinas....






domingo, 26 de julho de 2009

Prateleira debaixo




Na prateleira debaixo de toda mulher existem livros que nos comunicam com os oráculos.
Ao menos achamos que sim.

A filosofia milenar chinesa revela o futuro, naturalmente amoroso pelo qual buscam as consulentes mulheres. Sacudimos com força os afetos e jogamos no colchão seis moedas para a leitura de Confúcio.
O I Ching é de certo cruel conosco.
Você abre, e lê.
Escrito por Confúcio, traduzido por brasileiros, na centéssima edição: "A relação do sujeito com o seu parceiro tem atravessado uma fase de dificuldades e perigos por este introduzidos".
E não adianta jogar de novo.
Confúcio deve saber o que diz.
Deixamos o livro chinês de lado e vamos em busca dos saberes de um povo perseguido. Os ciganos. Nômades que são, eles devem entender melhor de homens do que nós...
Para consultá-lo não devemos estar naqueles dias. Nunca entendi o porquê...
Sem modess ou moedas, colocamos a cabeça na capa dura que tem o livro e nos concentramos na pergunta. De cunho amoroso, naturalmente.
Os ciganos são ainda menos piedosos com as mulheres do que o velhinho das moedas.
A leitura das cartas é simples. Se você abriu numa página onde há uma serpente, não precisa nem ler o resto. E não adianta forçar a cabeça de mulher mais uma vez contra a capa do livro.
Os ciganos devem saber o que dizem.
De saco cheio das consultas desanimadoras escritas por quem só fala bobagem, a gente vai em busca daquele livro pequeno, psicografado.
O autor veio do além para nos dizer algo.
Sentamos no mesmo colchão no qual jogamos as moedas, pensamos com a mesma cabeça que pressionamos no livro e obtemos a mesma resposta até de quem já morreu: "reorganiza a tua vida e busca o equilíbrio enquanto é tempo. Não confia no homem que está ao seu lado"
Putas da vida, a gente joga os três livros de volta na estante.
Decididas a mudar o destino de mulher traída a gente lembra que tem um livrinho escondido cujo conteúdo talvez, precisemos reler.
Esse, ao contrário dos escritos ou psicografados, ajuda.
Abrimos na página certa e ficamos em paz com a leitura do Kama Sutra.
Afinal, o Kama Sutra deve saber o que diz...

























segunda-feira, 20 de julho de 2009

Telescópio


Tinha os olhos esbugalhados. Dividia a sua igrata existência de peixe, com um pouco d´água. Estava preso à um saco plástico. Bastava um punhado de moedas para que o levassem para casa. Antônia considerou essa possibilidade. Deveria dar ao peixe um lar melhorado. Afeto, alegria e uma vida limitada à um aquário.

A mulher ficou alí parada observando telescópio. Esse fora o nome que a biologia deu ao coitado. Antônia supeitava que sim.

Achou melhor não misturá-lo aos sacos que carregava da feira. Com aquela visão superdimensionada, telescópio podia se assustar com um morango ou com um brócolis, quem sabe...

O que faria ela com telescópio? O que faria Antônia com os olhos avantajados do peixe que vê?

Telescópio, de certo, ia enxergar a existência da mulher. De dia ou de noite ela seria observada. Certamente ele o faria. Isso a preocupava.

Se fosse adotado, ganharia um nome. De gente.

Pensou como só mulheres conseguem pensar. E foi com espontaniedade que enfiou a mão na bolsa e pescou quatro Reais para comprar aquela criatura.

Sairam da feira, os morangos, os brócolis, telescópio e Antônia. Rumo ao aquário melhorado que era a vida da mulher.

Enquanto pensava no nome que daria ao peixe que agora lhe pertencia, a sacola caiu. E não foi a que carregava os morangos...

Telescópio deve ter se assustado com a altura da queda.

Olhos superdimensionados...

O peixe morreu de olhos abertos na tentativa de enxergar os mistérios que têm as mulheres.

Telescópio que se chamaria Otávio, se foi sem experimentá-los.

Mal sabia o peixe que foi melhor assim.

Pode não ser uma boa idéia observar mulheres através de telescópios.







domingo, 19 de julho de 2009

Lei Seca


Encontraram-se as quatro no bar preferido de uma delas. Quatro mulheres de trinta, desacompanhadas. E não era por falta de beleza não. Todas eram bonitas.

Descorriam sobre os relacionamentos de hoje em dia. A mais alegre narrava a noite anterior que passou com um daqueles que a gente sabe que não vai dar em nada. E nem quer que dê.

A mais moça contava com os olhos curiosos de criança o final súbito de mais uma relação prematura cujo nome nem foi possível dar. Bebeu um gole de cerveja e engoliu a dúvida, gelada. As quatro, embora com 30, não tinham uma resposta. Desconfiavam que a culpa haveria de ser do poema que ela, mulher,escreveu para o covarde.

A mais deprimida delas que chegou do trabalho só queria beber uma cerveja e encontrar um príncipe num pântano para sapos. Já tinha beijado muitos mas nunca os viu mudar. Eles pulam. Culpados sejam os autores dos contos de fadas!

A mais sábia, anunciou a partida. Aquele não era o dia. Mulher que é, ela conseguia pressentir...

Homens tem serventias, é certo. Mas não é possível serví-los nem um sanduíche pela manhã que eles vão embora correndo. Não se sabe para onde.

Homens tem serventias, é certo. Mas não se pode afagar os cabelos, beijar as bochechas, telefonar...

Tem serventia, desde que não nos arrisquemos a amá-los.

Do que se escondem? O que evitam? O que não querem de nós?

As três saíram do bar sem respostas mas com álcool na cabeça. Era preciso fugir à tempo da lei seca na qual vivem as mulheres de trinta. E como se sabe, é ela quem nos espreita no caminho de casa.









sexta-feira, 17 de julho de 2009

As que Nascem Mulheres


Quando tinha onze anos ela viu a primeira regra descer coxa à baixo. Estancou o sangue com um chumaço de algodão. Não queria ser esvaziada tão cedo.

Guardou na gaveta de menina o algodão duro e escuro como se guarda o umbigo de um filho. Guardou.

Correu para o jardim da casa de família intrigada com o que lhe acontecera. Havia sangue e portanto- acreditava a menina- poderia não ser bom sinal.

Quando o primeiro filete vermelho visitou a parte debaixo de Suzana era noite de natal. A menina tirou da mesma gaveta a carta lacrada e perfumada que fora entregue à mãe em segredo. Lá dentro, escrito à mão, uma frase para o bom velhinho. O desejo da menina era simples. Não custava caro. Queria uma Barbie. Queria um Ken.

Suzana queria brincar de casinha.

Passaram-se os anos e muitas regras ainda vieram. Suzana virou mulher obediente a todas elas. Era preciso para sangrar menos...

De lá para cá ela só perdeu. Perdeu pelo caminho de mulher o hímen, a mãe, parte de um dos seios, os namorados, a juventude. Sentada à mesa na noite de natal, desacompanhada e já desprovida de pedaços, Suzana gritou.

Quem grita daquela maneira não é só porque sangra nas coxas. Quem grita como Suzana gritou é porque quer e não pode, brincar de casinha.






terça-feira, 14 de julho de 2009

Denominador Comum


Ele disse que não queria mais. Não acredito. Ela pensava enquanto mastigava um chiclete que já estava amargo. Cuspiu para fora da janela do carro que ele tinha. Cruzou as pernas e olhou para os pés do monstro no qual ele se transformara. Só olhou para baixo. Não chorou.

Depois Carmela me contou que nunca tinha chorado na frente de um homem. Sobretudo quando eles a deixavam. E eu sei que eles deixam. Ela não devia estar mentindo...

Três anos de namoro e dois de casados. Essa era a contabilidade da relação negativa. Ela precisava correr e compensar as horas perdidas. Queria ter um saldo positivo na vida.

Saiu do carro que ele comprara e bateu a porta com força. Se afastou, deu mais ou menos uns vinte passos enquanto realizava mentalmente a prova real do companheiro perdido. Caminhou para a Vinte e Oito de Setembro, chegou no prédio e desceu para o S201. Sempre para baixo. Puta merda. Repetiu Carmela. Duas vezes.

Abriu a porta do apartamento da mãe. Ela ainda tinha a chave, mesmo que subtraída da família, depois de se somar a Fábio.

Entrou no quarto escuro e procurou a calculadora. Era preciso fazer as contas. Puxou o diário e se assustou com os números negativos. Carmela havia estado com muitos homens. Alguns lhe renderam experiências ímpares, os dois últimos foram pares perfeitos, apaixonados... mas havia um denominador comum: todos eles, todos. A deixaram.

Carmela tateou na gaveta da irmã mais moça a tabuada. Era preciso aprender a somar.

Mulheres nunca foram boas em matemática.








domingo, 12 de julho de 2009

Barriga de Freira


Pintou os olhos de preto e colou os cílios postiços. Ouviu dizer que uma mulher deve conquistar um homem pelo olhar. Teresa era moça bonita, quadris largos, ia ser boa parideira. De gêmeos. Era o sonho dela. Todo mês ela sangrava a falta dos filhos que não vinham. Desperdício de óvulos.

Trinta e cinco anos de idade e nenhuma barriga. Um umbigo que queria inchar mesmo que fosse preciso cortar depois para arrumar a hérnia.

A avó da mulher feita já olhava para a neta com pena. Olhar objetivo de quem usa óculos e aumenta a desgraça dos outros. Teresa olhava para a avó com o olhar turvo de quem não usa lentes, e nem enxerga a barriga.

Saiu, comprou uma barriga de freira e comeu. Era doce. Mas a barriga de Teresa ainda roncava de maternidade.

Chegou na casa da avó que já não tinha útero, abriu o congelador e decidiu congelar um ovo inteiro para usar depois. Juntou dinheiro e congelou dois, porque queria um menino e uma menina. Dois casulos guardados para os filhos.

No mês de agosto Teresa completou cinquenta anos. Foi a única vez que a avó viu a barriga inchada de Teresa. Lá dentro, bem guardado, a neta gerava um mioma.






Cruzar e Partir


O telefone não toca. Cristina estava sentada com Primavera no colo, que miava. A gatinha de dois meses não experimentaria, nessa encarnação, a angústia de um telefone que não se manisfesta. Sorte da Primavera. Cristina vivia o inverno. Ele disse que iria ligar. Ela, mulher, acreditou.

A diferença entre Cristina e Primavera, era que ao contrário da peluda, a moça não tinha sete vidas... Não podia mais esperar o toque daquele aparelho antigo. Gostava de homens mais velhos.

Sete horas da noite. Primavera vai beber um pouco de leite no pote para gatos. Cristina acende um cigarro e faz mal ao pulmão. Assopra, e o telefone não toca. Primavera brinca com o rabo. Cristina chora.

Mulher e gato agora aguardam em silêncio.

A de quatro patas lambe o corpo peludo. A bípede leva uma das maõs à boca e rói cinco das dez unhas que possui. Ajuda a passar o tempo de uma vida de telefones silenciosos.

Primavera dorme enquanto Cristina bebe e prejudica o fígado.

Dez horas da noite e os ouvidos apurados da felina e da mulher se movimentam em direção a um barulho. Não era Tadeu ao telefone, era Nestor, o gato gordo e velho que cortejava Primavera. Ele de certo queria cruzar e partir.

As duas tinham algo em comum. A diferença é que o telefone não toca.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

La Vie en Rose


Há muito eu escuto falar da doença do século. Do século XXI. Doença moderna. Contemporânea.

A gente abre o armarinho do banheiro, olha a escova de dente e nota que alí, naquele cantinho úmido não há uma escova para dentes azul. Só uma rosa. Sozinha, molhada e sem hortelã. Um olhar mais atento vê, escondida, do lado esquerdo: a caixa. Preta. Essa é a cor da tarja.

Remédios controlados para controlar uma vida que a gente procura mas não acha na bula.

Bulas de remédios sempre me intrigaram muito. Se vocêr for ler, não toma. Se não tomar, morre. De amor, de ansiedade, de morte morrida...

Aí, para melhorar a ingestão da bola, eles pintam ela de rosa. Para ficar mais feminina, eu acho.

Oito horas da manhã, escovo os dentes, engulo uma bola para não morrer no dia que parece azul. Só parece.

Lá fora o trabalho me espera. É preciso enfrentar. Não tem jeito. Mas tem bola.

Por sorte, a bola rosa a essa altura do dia já está fazendo efeito. Desçeu pela garganta, passou pela faringe, e chegou na corrente sanguínea, vermelha. Vermelho com rosa dá o que? Sei não...

Chego na redação para ler a pauta do dia, com o meu sapato que faz barulho. Casamento. É a retranca. Igreja é o local. E o nome da noiva?! O nome da noiva era um nome de flor. Rosa.

Sabe lá quantas daquelas eu ainda vou ter engolir para fechar o texto, abrir a caixa preta dos meus trintas anos quando chegar em casa, escovar os dentes e dormir?!

Ainda bem que eu tenho uma camisola azul...


quarta-feira, 8 de julho de 2009

Medo de Avião

Ela tinha medo de avião mas deveria viajar.
Se organizou, fez a mala e comprou uma passagem da Air France. Rio - Paris/Paris- Rio
Maria vôou sabendo que Deus só deu asas aos pássaros.
Maldito Santos Dummont. Pensava.
Maldito seja.
Lá estava ela. Com os pés fora do chão. Se sabia uma mulher de coragem.
Paris.
Turbulência.
Rio.
Voltava.
Ela tinha onze horas para conhecer aquele homem. Era preciso se distrair dentro daquela caixa.
Lembrou da música e sorriu. Ele de certo, não conhecia Belchior. De lá para cá, em cima do oceano, no escuro, eram só os dois. Maria do Socorro até se esqueceu da caixa que voa. Até se esqueceu que uma mulher pode voar...
E voa.
Do lado de fora da janela da caixa voadora, ela viu o Rio. Do lado de dentro da janela de Maria ela viu o amor. Desapertou o cinto e pisou, no chão.