
Quando tinha onze anos ela viu a primeira regra descer coxa à baixo. Estancou o sangue com um chumaço de algodão. Não queria ser esvaziada tão cedo.
Guardou na gaveta de menina o algodão duro e escuro como se guarda o umbigo de um filho. Guardou.
Correu para o jardim da casa de família intrigada com o que lhe acontecera. Havia sangue e portanto- acreditava a menina- poderia não ser bom sinal.
Quando o primeiro filete vermelho visitou a parte debaixo de Suzana era noite de natal. A menina tirou da mesma gaveta a carta lacrada e perfumada que fora entregue à mãe em segredo. Lá dentro, escrito à mão, uma frase para o bom velhinho. O desejo da menina era simples. Não custava caro. Queria uma Barbie. Queria um Ken.
Suzana queria brincar de casinha.
Passaram-se os anos e muitas regras ainda vieram. Suzana virou mulher obediente a todas elas. Era preciso para sangrar menos...
De lá para cá ela só perdeu. Perdeu pelo caminho de mulher o hímen, a mãe, parte de um dos seios, os namorados, a juventude. Sentada à mesa na noite de natal, desacompanhada e já desprovida de pedaços, Suzana gritou.
Quem grita daquela maneira não é só porque sangra nas coxas. Quem grita como Suzana gritou é porque quer e não pode, brincar de casinha.

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