sexta-feira, 10 de julho de 2009

La Vie en Rose


Há muito eu escuto falar da doença do século. Do século XXI. Doença moderna. Contemporânea.

A gente abre o armarinho do banheiro, olha a escova de dente e nota que alí, naquele cantinho úmido não há uma escova para dentes azul. Só uma rosa. Sozinha, molhada e sem hortelã. Um olhar mais atento vê, escondida, do lado esquerdo: a caixa. Preta. Essa é a cor da tarja.

Remédios controlados para controlar uma vida que a gente procura mas não acha na bula.

Bulas de remédios sempre me intrigaram muito. Se vocêr for ler, não toma. Se não tomar, morre. De amor, de ansiedade, de morte morrida...

Aí, para melhorar a ingestão da bola, eles pintam ela de rosa. Para ficar mais feminina, eu acho.

Oito horas da manhã, escovo os dentes, engulo uma bola para não morrer no dia que parece azul. Só parece.

Lá fora o trabalho me espera. É preciso enfrentar. Não tem jeito. Mas tem bola.

Por sorte, a bola rosa a essa altura do dia já está fazendo efeito. Desçeu pela garganta, passou pela faringe, e chegou na corrente sanguínea, vermelha. Vermelho com rosa dá o que? Sei não...

Chego na redação para ler a pauta do dia, com o meu sapato que faz barulho. Casamento. É a retranca. Igreja é o local. E o nome da noiva?! O nome da noiva era um nome de flor. Rosa.

Sabe lá quantas daquelas eu ainda vou ter engolir para fechar o texto, abrir a caixa preta dos meus trintas anos quando chegar em casa, escovar os dentes e dormir?!

Ainda bem que eu tenho uma camisola azul...


Um comentário:

  1. muito bom.
    ainda nao me rendi as bolas entao por aqui anda tudo apenas cinza...
    bjs
    ap

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