terça-feira, 14 de julho de 2009

Denominador Comum


Ele disse que não queria mais. Não acredito. Ela pensava enquanto mastigava um chiclete que já estava amargo. Cuspiu para fora da janela do carro que ele tinha. Cruzou as pernas e olhou para os pés do monstro no qual ele se transformara. Só olhou para baixo. Não chorou.

Depois Carmela me contou que nunca tinha chorado na frente de um homem. Sobretudo quando eles a deixavam. E eu sei que eles deixam. Ela não devia estar mentindo...

Três anos de namoro e dois de casados. Essa era a contabilidade da relação negativa. Ela precisava correr e compensar as horas perdidas. Queria ter um saldo positivo na vida.

Saiu do carro que ele comprara e bateu a porta com força. Se afastou, deu mais ou menos uns vinte passos enquanto realizava mentalmente a prova real do companheiro perdido. Caminhou para a Vinte e Oito de Setembro, chegou no prédio e desceu para o S201. Sempre para baixo. Puta merda. Repetiu Carmela. Duas vezes.

Abriu a porta do apartamento da mãe. Ela ainda tinha a chave, mesmo que subtraída da família, depois de se somar a Fábio.

Entrou no quarto escuro e procurou a calculadora. Era preciso fazer as contas. Puxou o diário e se assustou com os números negativos. Carmela havia estado com muitos homens. Alguns lhe renderam experiências ímpares, os dois últimos foram pares perfeitos, apaixonados... mas havia um denominador comum: todos eles, todos. A deixaram.

Carmela tateou na gaveta da irmã mais moça a tabuada. Era preciso aprender a somar.

Mulheres nunca foram boas em matemática.








Nenhum comentário:

Postar um comentário