
O telefone não toca. Cristina estava sentada com Primavera no colo, que miava. A gatinha de dois meses não experimentaria, nessa encarnação, a angústia de um telefone que não se manisfesta. Sorte da Primavera. Cristina vivia o inverno. Ele disse que iria ligar. Ela, mulher, acreditou.
A diferença entre Cristina e Primavera, era que ao contrário da peluda, a moça não tinha sete vidas... Não podia mais esperar o toque daquele aparelho antigo. Gostava de homens mais velhos.
Sete horas da noite. Primavera vai beber um pouco de leite no pote para gatos. Cristina acende um cigarro e faz mal ao pulmão. Assopra, e o telefone não toca. Primavera brinca com o rabo. Cristina chora.
Mulher e gato agora aguardam em silêncio.
A de quatro patas lambe o corpo peludo. A bípede leva uma das maõs à boca e rói cinco das dez unhas que possui. Ajuda a passar o tempo de uma vida de telefones silenciosos.
Primavera dorme enquanto Cristina bebe e prejudica o fígado.
Dez horas da noite e os ouvidos apurados da felina e da mulher se movimentam em direção a um barulho. Não era Tadeu ao telefone, era Nestor, o gato gordo e velho que cortejava Primavera. Ele de certo queria cruzar e partir.
As duas tinham algo em comum. A diferença é que o telefone não toca.

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