
Tinha os olhos esbugalhados. Dividia a sua igrata existência de peixe, com um pouco d´água. Estava preso à um saco plástico. Bastava um punhado de moedas para que o levassem para casa. Antônia considerou essa possibilidade. Deveria dar ao peixe um lar melhorado. Afeto, alegria e uma vida limitada à um aquário.
A mulher ficou alí parada observando telescópio. Esse fora o nome que a biologia deu ao coitado. Antônia supeitava que sim.
Achou melhor não misturá-lo aos sacos que carregava da feira. Com aquela visão superdimensionada, telescópio podia se assustar com um morango ou com um brócolis, quem sabe...
O que faria ela com telescópio? O que faria Antônia com os olhos avantajados do peixe que vê?
Telescópio, de certo, ia enxergar a existência da mulher. De dia ou de noite ela seria observada. Certamente ele o faria. Isso a preocupava.
Se fosse adotado, ganharia um nome. De gente.
Pensou como só mulheres conseguem pensar. E foi com espontaniedade que enfiou a mão na bolsa e pescou quatro Reais para comprar aquela criatura.
Sairam da feira, os morangos, os brócolis, telescópio e Antônia. Rumo ao aquário melhorado que era a vida da mulher.
Enquanto pensava no nome que daria ao peixe que agora lhe pertencia, a sacola caiu. E não foi a que carregava os morangos...
Telescópio deve ter se assustado com a altura da queda.
Olhos superdimensionados...
O peixe morreu de olhos abertos na tentativa de enxergar os mistérios que têm as mulheres.
Telescópio que se chamaria Otávio, se foi sem experimentá-los.
Mal sabia o peixe que foi melhor assim.
Pode não ser uma boa idéia observar mulheres através de telescópios.

muito bom Mari!!!
ResponderExcluir