segunda-feira, 20 de julho de 2009

Telescópio


Tinha os olhos esbugalhados. Dividia a sua igrata existência de peixe, com um pouco d´água. Estava preso à um saco plástico. Bastava um punhado de moedas para que o levassem para casa. Antônia considerou essa possibilidade. Deveria dar ao peixe um lar melhorado. Afeto, alegria e uma vida limitada à um aquário.

A mulher ficou alí parada observando telescópio. Esse fora o nome que a biologia deu ao coitado. Antônia supeitava que sim.

Achou melhor não misturá-lo aos sacos que carregava da feira. Com aquela visão superdimensionada, telescópio podia se assustar com um morango ou com um brócolis, quem sabe...

O que faria ela com telescópio? O que faria Antônia com os olhos avantajados do peixe que vê?

Telescópio, de certo, ia enxergar a existência da mulher. De dia ou de noite ela seria observada. Certamente ele o faria. Isso a preocupava.

Se fosse adotado, ganharia um nome. De gente.

Pensou como só mulheres conseguem pensar. E foi com espontaniedade que enfiou a mão na bolsa e pescou quatro Reais para comprar aquela criatura.

Sairam da feira, os morangos, os brócolis, telescópio e Antônia. Rumo ao aquário melhorado que era a vida da mulher.

Enquanto pensava no nome que daria ao peixe que agora lhe pertencia, a sacola caiu. E não foi a que carregava os morangos...

Telescópio deve ter se assustado com a altura da queda.

Olhos superdimensionados...

O peixe morreu de olhos abertos na tentativa de enxergar os mistérios que têm as mulheres.

Telescópio que se chamaria Otávio, se foi sem experimentá-los.

Mal sabia o peixe que foi melhor assim.

Pode não ser uma boa idéia observar mulheres através de telescópios.







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