sábado, 22 de agosto de 2009

O Brechó


O vestido vermelho de bolinhas brancas estava à mostra na arara do brechó. A etiqueta mostrava o preço: 20 euros. Lá dentro muitas mulheres se aglomeravam, o tocavam, o experimentavam e.... desistiam. A futura dona sabia o valor que teria o seu uso e, resolveu levá-lo. Na mala. Atravessou o oceano e chegou ao Brasil. De lá para cá o vestido permaneceu pendurado no armário sem corpo dentro.

Um dia resolveu usá-lo. Desabotou os botões um a um, dobrou a perna direita e se colocou dentro. Levantou as alças, ajustou a cintura e se olhou no espelho.

Gostou.

Foi para rua trabalhar.

Naquele dia a dona do vestido recebeu um aumento. A partir daí passou a usar vermelho com bolinhas brancas nas mais marcantes ocasiões da vida: o vestido cobriu-lhe a barriga quando chegou à maternidade, esteve na foto do primeiro aniversário do filho, serviu de lenço para enxugar as lágrimas quando se separou do marido.

Numa terça-feira à tarde a dona da peça feminina, não se sabe bem o por quê ,sentiu vontade de entrar no vestido. Mas aquele, parecia um dia comum.

Foi então que o inesperado aconteceu.

Uma xícara de café caiu sobre o tecido. Um estranho a derramou.

Sem querer.

Foi o vestido que quis.

A borra preta misturou-se ao pano vermelho de bolinhas brancas. A vida da dona misturou-se a do desconhecido do café.

Amaram-se loucamente para o resto da vida. Ouvi dizer que fixaram residência na França.

Quanto ao vestido vermelho? Foi vendido a um brechó.

Passei na porta da lojinha outro dia.

Um punhado de mulheres o observavam.

Mesmo manchado, a etiqueta indicava o alto preço daquela peça de segunda mão.

A mais jovem das mulheres contou as moedas e comprou o destino.

Saiu da loja e, sem saber bem o por quê, recebeu naquele dia, um aumento.

















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