
O vestido vermelho de bolinhas brancas estava à mostra na arara do brechó. A etiqueta mostrava o preço: 20 euros. Lá dentro muitas mulheres se aglomeravam, o tocavam, o experimentavam e.... desistiam. A futura dona sabia o valor que teria o seu uso e, resolveu levá-lo. Na mala. Atravessou o oceano e chegou ao Brasil. De lá para cá o vestido permaneceu pendurado no armário sem corpo dentro.
Um dia resolveu usá-lo. Desabotou os botões um a um, dobrou a perna direita e se colocou dentro. Levantou as alças, ajustou a cintura e se olhou no espelho.
Gostou.
Foi para rua trabalhar.
Naquele dia a dona do vestido recebeu um aumento. A partir daí passou a usar vermelho com bolinhas brancas nas mais marcantes ocasiões da vida: o vestido cobriu-lhe a barriga quando chegou à maternidade, esteve na foto do primeiro aniversário do filho, serviu de lenço para enxugar as lágrimas quando se separou do marido.
Numa terça-feira à tarde a dona da peça feminina, não se sabe bem o por quê ,sentiu vontade de entrar no vestido. Mas aquele, parecia um dia comum.
Foi então que o inesperado aconteceu.
Uma xícara de café caiu sobre o tecido. Um estranho a derramou.
Sem querer.
Foi o vestido que quis.
A borra preta misturou-se ao pano vermelho de bolinhas brancas. A vida da dona misturou-se a do desconhecido do café.
Amaram-se loucamente para o resto da vida. Ouvi dizer que fixaram residência na França.
Quanto ao vestido vermelho? Foi vendido a um brechó.
Passei na porta da lojinha outro dia.
Um punhado de mulheres o observavam.
Mesmo manchado, a etiqueta indicava o alto preço daquela peça de segunda mão.
A mais jovem das mulheres contou as moedas e comprou o destino.
Saiu da loja e, sem saber bem o por quê, recebeu naquele dia, um aumento.

Nenhum comentário:
Postar um comentário