quarta-feira, 29 de julho de 2009

Anatomia Feminina


Tem uma hora que a gente decide que o corpo é nosso. Não do outro. Começa aí um processo interessante da mulher. Essa guerra entre o que nos foi imposto e o que é de fato, se inicia pelas mãos.

Não pintamos as unhas.

Olhamos para baixo e nos deparamos com o sexo quase nú e não nos reconhecemos. Estipulamos o fim das depilações acrobáticas e voltamos a ser peludas. Voltamos a ser mulher.

A redescoberta do corpo é lenta e complicada.

O espelho nos vigia.

A academia deixa de ser um igreja na qual a gente reza todos os dias pela manhã. A fé agora é maior. Em sí.

Ingerimos pedaços grandes de pão. E depois, a gente dá descarga. É o fim da prisão de ventre. A gente não se preocupa mais com a barriga.

O corpo é nosso.

É a gente que manda.

Mas o espelho nos vigia.

Chega um dia, porém, que a gente divide ele com o outro. A gente cede. A gente recebe visita.

Há na anatomia feminina uma porta de entrada sabe se lá para onde... Mas agora, ao menos, ela tem cortinas....






domingo, 26 de julho de 2009

Prateleira debaixo




Na prateleira debaixo de toda mulher existem livros que nos comunicam com os oráculos.
Ao menos achamos que sim.

A filosofia milenar chinesa revela o futuro, naturalmente amoroso pelo qual buscam as consulentes mulheres. Sacudimos com força os afetos e jogamos no colchão seis moedas para a leitura de Confúcio.
O I Ching é de certo cruel conosco.
Você abre, e lê.
Escrito por Confúcio, traduzido por brasileiros, na centéssima edição: "A relação do sujeito com o seu parceiro tem atravessado uma fase de dificuldades e perigos por este introduzidos".
E não adianta jogar de novo.
Confúcio deve saber o que diz.
Deixamos o livro chinês de lado e vamos em busca dos saberes de um povo perseguido. Os ciganos. Nômades que são, eles devem entender melhor de homens do que nós...
Para consultá-lo não devemos estar naqueles dias. Nunca entendi o porquê...
Sem modess ou moedas, colocamos a cabeça na capa dura que tem o livro e nos concentramos na pergunta. De cunho amoroso, naturalmente.
Os ciganos são ainda menos piedosos com as mulheres do que o velhinho das moedas.
A leitura das cartas é simples. Se você abriu numa página onde há uma serpente, não precisa nem ler o resto. E não adianta forçar a cabeça de mulher mais uma vez contra a capa do livro.
Os ciganos devem saber o que dizem.
De saco cheio das consultas desanimadoras escritas por quem só fala bobagem, a gente vai em busca daquele livro pequeno, psicografado.
O autor veio do além para nos dizer algo.
Sentamos no mesmo colchão no qual jogamos as moedas, pensamos com a mesma cabeça que pressionamos no livro e obtemos a mesma resposta até de quem já morreu: "reorganiza a tua vida e busca o equilíbrio enquanto é tempo. Não confia no homem que está ao seu lado"
Putas da vida, a gente joga os três livros de volta na estante.
Decididas a mudar o destino de mulher traída a gente lembra que tem um livrinho escondido cujo conteúdo talvez, precisemos reler.
Esse, ao contrário dos escritos ou psicografados, ajuda.
Abrimos na página certa e ficamos em paz com a leitura do Kama Sutra.
Afinal, o Kama Sutra deve saber o que diz...

























segunda-feira, 20 de julho de 2009

Telescópio


Tinha os olhos esbugalhados. Dividia a sua igrata existência de peixe, com um pouco d´água. Estava preso à um saco plástico. Bastava um punhado de moedas para que o levassem para casa. Antônia considerou essa possibilidade. Deveria dar ao peixe um lar melhorado. Afeto, alegria e uma vida limitada à um aquário.

A mulher ficou alí parada observando telescópio. Esse fora o nome que a biologia deu ao coitado. Antônia supeitava que sim.

Achou melhor não misturá-lo aos sacos que carregava da feira. Com aquela visão superdimensionada, telescópio podia se assustar com um morango ou com um brócolis, quem sabe...

O que faria ela com telescópio? O que faria Antônia com os olhos avantajados do peixe que vê?

Telescópio, de certo, ia enxergar a existência da mulher. De dia ou de noite ela seria observada. Certamente ele o faria. Isso a preocupava.

Se fosse adotado, ganharia um nome. De gente.

Pensou como só mulheres conseguem pensar. E foi com espontaniedade que enfiou a mão na bolsa e pescou quatro Reais para comprar aquela criatura.

Sairam da feira, os morangos, os brócolis, telescópio e Antônia. Rumo ao aquário melhorado que era a vida da mulher.

Enquanto pensava no nome que daria ao peixe que agora lhe pertencia, a sacola caiu. E não foi a que carregava os morangos...

Telescópio deve ter se assustado com a altura da queda.

Olhos superdimensionados...

O peixe morreu de olhos abertos na tentativa de enxergar os mistérios que têm as mulheres.

Telescópio que se chamaria Otávio, se foi sem experimentá-los.

Mal sabia o peixe que foi melhor assim.

Pode não ser uma boa idéia observar mulheres através de telescópios.







domingo, 19 de julho de 2009

Lei Seca


Encontraram-se as quatro no bar preferido de uma delas. Quatro mulheres de trinta, desacompanhadas. E não era por falta de beleza não. Todas eram bonitas.

Descorriam sobre os relacionamentos de hoje em dia. A mais alegre narrava a noite anterior que passou com um daqueles que a gente sabe que não vai dar em nada. E nem quer que dê.

A mais moça contava com os olhos curiosos de criança o final súbito de mais uma relação prematura cujo nome nem foi possível dar. Bebeu um gole de cerveja e engoliu a dúvida, gelada. As quatro, embora com 30, não tinham uma resposta. Desconfiavam que a culpa haveria de ser do poema que ela, mulher,escreveu para o covarde.

A mais deprimida delas que chegou do trabalho só queria beber uma cerveja e encontrar um príncipe num pântano para sapos. Já tinha beijado muitos mas nunca os viu mudar. Eles pulam. Culpados sejam os autores dos contos de fadas!

A mais sábia, anunciou a partida. Aquele não era o dia. Mulher que é, ela conseguia pressentir...

Homens tem serventias, é certo. Mas não é possível serví-los nem um sanduíche pela manhã que eles vão embora correndo. Não se sabe para onde.

Homens tem serventias, é certo. Mas não se pode afagar os cabelos, beijar as bochechas, telefonar...

Tem serventia, desde que não nos arrisquemos a amá-los.

Do que se escondem? O que evitam? O que não querem de nós?

As três saíram do bar sem respostas mas com álcool na cabeça. Era preciso fugir à tempo da lei seca na qual vivem as mulheres de trinta. E como se sabe, é ela quem nos espreita no caminho de casa.









sexta-feira, 17 de julho de 2009

As que Nascem Mulheres


Quando tinha onze anos ela viu a primeira regra descer coxa à baixo. Estancou o sangue com um chumaço de algodão. Não queria ser esvaziada tão cedo.

Guardou na gaveta de menina o algodão duro e escuro como se guarda o umbigo de um filho. Guardou.

Correu para o jardim da casa de família intrigada com o que lhe acontecera. Havia sangue e portanto- acreditava a menina- poderia não ser bom sinal.

Quando o primeiro filete vermelho visitou a parte debaixo de Suzana era noite de natal. A menina tirou da mesma gaveta a carta lacrada e perfumada que fora entregue à mãe em segredo. Lá dentro, escrito à mão, uma frase para o bom velhinho. O desejo da menina era simples. Não custava caro. Queria uma Barbie. Queria um Ken.

Suzana queria brincar de casinha.

Passaram-se os anos e muitas regras ainda vieram. Suzana virou mulher obediente a todas elas. Era preciso para sangrar menos...

De lá para cá ela só perdeu. Perdeu pelo caminho de mulher o hímen, a mãe, parte de um dos seios, os namorados, a juventude. Sentada à mesa na noite de natal, desacompanhada e já desprovida de pedaços, Suzana gritou.

Quem grita daquela maneira não é só porque sangra nas coxas. Quem grita como Suzana gritou é porque quer e não pode, brincar de casinha.






terça-feira, 14 de julho de 2009

Denominador Comum


Ele disse que não queria mais. Não acredito. Ela pensava enquanto mastigava um chiclete que já estava amargo. Cuspiu para fora da janela do carro que ele tinha. Cruzou as pernas e olhou para os pés do monstro no qual ele se transformara. Só olhou para baixo. Não chorou.

Depois Carmela me contou que nunca tinha chorado na frente de um homem. Sobretudo quando eles a deixavam. E eu sei que eles deixam. Ela não devia estar mentindo...

Três anos de namoro e dois de casados. Essa era a contabilidade da relação negativa. Ela precisava correr e compensar as horas perdidas. Queria ter um saldo positivo na vida.

Saiu do carro que ele comprara e bateu a porta com força. Se afastou, deu mais ou menos uns vinte passos enquanto realizava mentalmente a prova real do companheiro perdido. Caminhou para a Vinte e Oito de Setembro, chegou no prédio e desceu para o S201. Sempre para baixo. Puta merda. Repetiu Carmela. Duas vezes.

Abriu a porta do apartamento da mãe. Ela ainda tinha a chave, mesmo que subtraída da família, depois de se somar a Fábio.

Entrou no quarto escuro e procurou a calculadora. Era preciso fazer as contas. Puxou o diário e se assustou com os números negativos. Carmela havia estado com muitos homens. Alguns lhe renderam experiências ímpares, os dois últimos foram pares perfeitos, apaixonados... mas havia um denominador comum: todos eles, todos. A deixaram.

Carmela tateou na gaveta da irmã mais moça a tabuada. Era preciso aprender a somar.

Mulheres nunca foram boas em matemática.








domingo, 12 de julho de 2009

Barriga de Freira


Pintou os olhos de preto e colou os cílios postiços. Ouviu dizer que uma mulher deve conquistar um homem pelo olhar. Teresa era moça bonita, quadris largos, ia ser boa parideira. De gêmeos. Era o sonho dela. Todo mês ela sangrava a falta dos filhos que não vinham. Desperdício de óvulos.

Trinta e cinco anos de idade e nenhuma barriga. Um umbigo que queria inchar mesmo que fosse preciso cortar depois para arrumar a hérnia.

A avó da mulher feita já olhava para a neta com pena. Olhar objetivo de quem usa óculos e aumenta a desgraça dos outros. Teresa olhava para a avó com o olhar turvo de quem não usa lentes, e nem enxerga a barriga.

Saiu, comprou uma barriga de freira e comeu. Era doce. Mas a barriga de Teresa ainda roncava de maternidade.

Chegou na casa da avó que já não tinha útero, abriu o congelador e decidiu congelar um ovo inteiro para usar depois. Juntou dinheiro e congelou dois, porque queria um menino e uma menina. Dois casulos guardados para os filhos.

No mês de agosto Teresa completou cinquenta anos. Foi a única vez que a avó viu a barriga inchada de Teresa. Lá dentro, bem guardado, a neta gerava um mioma.






Cruzar e Partir


O telefone não toca. Cristina estava sentada com Primavera no colo, que miava. A gatinha de dois meses não experimentaria, nessa encarnação, a angústia de um telefone que não se manisfesta. Sorte da Primavera. Cristina vivia o inverno. Ele disse que iria ligar. Ela, mulher, acreditou.

A diferença entre Cristina e Primavera, era que ao contrário da peluda, a moça não tinha sete vidas... Não podia mais esperar o toque daquele aparelho antigo. Gostava de homens mais velhos.

Sete horas da noite. Primavera vai beber um pouco de leite no pote para gatos. Cristina acende um cigarro e faz mal ao pulmão. Assopra, e o telefone não toca. Primavera brinca com o rabo. Cristina chora.

Mulher e gato agora aguardam em silêncio.

A de quatro patas lambe o corpo peludo. A bípede leva uma das maõs à boca e rói cinco das dez unhas que possui. Ajuda a passar o tempo de uma vida de telefones silenciosos.

Primavera dorme enquanto Cristina bebe e prejudica o fígado.

Dez horas da noite e os ouvidos apurados da felina e da mulher se movimentam em direção a um barulho. Não era Tadeu ao telefone, era Nestor, o gato gordo e velho que cortejava Primavera. Ele de certo queria cruzar e partir.

As duas tinham algo em comum. A diferença é que o telefone não toca.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

La Vie en Rose


Há muito eu escuto falar da doença do século. Do século XXI. Doença moderna. Contemporânea.

A gente abre o armarinho do banheiro, olha a escova de dente e nota que alí, naquele cantinho úmido não há uma escova para dentes azul. Só uma rosa. Sozinha, molhada e sem hortelã. Um olhar mais atento vê, escondida, do lado esquerdo: a caixa. Preta. Essa é a cor da tarja.

Remédios controlados para controlar uma vida que a gente procura mas não acha na bula.

Bulas de remédios sempre me intrigaram muito. Se vocêr for ler, não toma. Se não tomar, morre. De amor, de ansiedade, de morte morrida...

Aí, para melhorar a ingestão da bola, eles pintam ela de rosa. Para ficar mais feminina, eu acho.

Oito horas da manhã, escovo os dentes, engulo uma bola para não morrer no dia que parece azul. Só parece.

Lá fora o trabalho me espera. É preciso enfrentar. Não tem jeito. Mas tem bola.

Por sorte, a bola rosa a essa altura do dia já está fazendo efeito. Desçeu pela garganta, passou pela faringe, e chegou na corrente sanguínea, vermelha. Vermelho com rosa dá o que? Sei não...

Chego na redação para ler a pauta do dia, com o meu sapato que faz barulho. Casamento. É a retranca. Igreja é o local. E o nome da noiva?! O nome da noiva era um nome de flor. Rosa.

Sabe lá quantas daquelas eu ainda vou ter engolir para fechar o texto, abrir a caixa preta dos meus trintas anos quando chegar em casa, escovar os dentes e dormir?!

Ainda bem que eu tenho uma camisola azul...


quarta-feira, 8 de julho de 2009

Medo de Avião

Ela tinha medo de avião mas deveria viajar.
Se organizou, fez a mala e comprou uma passagem da Air France. Rio - Paris/Paris- Rio
Maria vôou sabendo que Deus só deu asas aos pássaros.
Maldito Santos Dummont. Pensava.
Maldito seja.
Lá estava ela. Com os pés fora do chão. Se sabia uma mulher de coragem.
Paris.
Turbulência.
Rio.
Voltava.
Ela tinha onze horas para conhecer aquele homem. Era preciso se distrair dentro daquela caixa.
Lembrou da música e sorriu. Ele de certo, não conhecia Belchior. De lá para cá, em cima do oceano, no escuro, eram só os dois. Maria do Socorro até se esqueceu da caixa que voa. Até se esqueceu que uma mulher pode voar...
E voa.
Do lado de fora da janela da caixa voadora, ela viu o Rio. Do lado de dentro da janela de Maria ela viu o amor. Desapertou o cinto e pisou, no chão.