domingo, 30 de agosto de 2009

Toilette Feminino


Levou a nova namorada para o trabalho. Colocou- a dentro do escritório e emprestou-lhe um computador para que se distraísse e esperasse, a outra chegar.... A ex-companheira dele chegava à empresa desavisada. Carregava na bolsa a leveza de o ter deixado quando viu a cena pela porta de vidro do escritório. Lá dentro, o ex, a atual, a mão na perna.

A ex nada fez.

O ex acreditava não ter feito nada.

A atual nem desconfiava o quê fazia.

Três seres humanos envolvidos numa única história acabada.

Desperdício de tempo. Desperdício de vidas.

A ex e a atual encontraram-se no toilette feminino. A ex emprestou-lhe a escova para cabelos. A outra ofereceu-lhe um batom para lábios. Saíram juntas pela porta de vidro e seguiram pelo mesmo caminho.

Dotadas de elegância e gentileza uma cedeu a passagem para a outra.

A placa da empresa indicava naturalmente a direção a tomar.

Saída.


sábado, 22 de agosto de 2009

O Brechó


O vestido vermelho de bolinhas brancas estava à mostra na arara do brechó. A etiqueta mostrava o preço: 20 euros. Lá dentro muitas mulheres se aglomeravam, o tocavam, o experimentavam e.... desistiam. A futura dona sabia o valor que teria o seu uso e, resolveu levá-lo. Na mala. Atravessou o oceano e chegou ao Brasil. De lá para cá o vestido permaneceu pendurado no armário sem corpo dentro.

Um dia resolveu usá-lo. Desabotou os botões um a um, dobrou a perna direita e se colocou dentro. Levantou as alças, ajustou a cintura e se olhou no espelho.

Gostou.

Foi para rua trabalhar.

Naquele dia a dona do vestido recebeu um aumento. A partir daí passou a usar vermelho com bolinhas brancas nas mais marcantes ocasiões da vida: o vestido cobriu-lhe a barriga quando chegou à maternidade, esteve na foto do primeiro aniversário do filho, serviu de lenço para enxugar as lágrimas quando se separou do marido.

Numa terça-feira à tarde a dona da peça feminina, não se sabe bem o por quê ,sentiu vontade de entrar no vestido. Mas aquele, parecia um dia comum.

Foi então que o inesperado aconteceu.

Uma xícara de café caiu sobre o tecido. Um estranho a derramou.

Sem querer.

Foi o vestido que quis.

A borra preta misturou-se ao pano vermelho de bolinhas brancas. A vida da dona misturou-se a do desconhecido do café.

Amaram-se loucamente para o resto da vida. Ouvi dizer que fixaram residência na França.

Quanto ao vestido vermelho? Foi vendido a um brechó.

Passei na porta da lojinha outro dia.

Um punhado de mulheres o observavam.

Mesmo manchado, a etiqueta indicava o alto preço daquela peça de segunda mão.

A mais jovem das mulheres contou as moedas e comprou o destino.

Saiu da loja e, sem saber bem o por quê, recebeu naquele dia, um aumento.

















domingo, 9 de agosto de 2009

Jogatina


Toda vez que jogava búzios tinha sempre um que ficava fechado. Os demais, abertos. A mãe de santo que ela tanto confiava disse que no futuro haveria uma tristeza naquela relação.

Andou com a vida e seguiu com o rapaz. Não deu ouvidos.

Soube num dia de sol que o homem por quem ela sempre perguntava e com quem dividia a cama, a comida, o sexo, se dividia também com outra mulher.

De lá para cá, ela nunca mais ligou para a Bahia. Todo santo dia ela própria sacudia os búzios no prato branco e roubava do jogo a favor de sí mesma.

Quinze para o meio Dia


Ganhou um relógio de presente. Tinha a pulseira de couro e os algarismos romanos. O presente veio numa caixa com um bilhete escrito à mão de homem: tempo. Era só o que dizia. Não soube nunca quem lhe enviara presente tão estranho. Usou mesmo assim.

Um dia andando pela rua da Passagem uma menina de uns oito anos lhe perguntou as horas. A mulher vigiada pelo tempo do relógio, olhou os ponteiros e sussurou no ouvido da pequena de chiquinhas: faltam quinze para o meio dia.

Depois disso, olhou o relógio dourado, fez parar as cordas e jogou o tempo no lixo. Nunca mais respondeu a ninguém e nem a sí própria a hora que passava nos dias.

O tempo daquela mulher de trinta anos, naquele dia de sol, na rua da passagem ficou parado numa esquina.


terça-feira, 4 de agosto de 2009

Acontece, mas não se explica


Intuição é propriedade das mulheres. Todas nós sabemos que a temos. Se você sente, um dia se realiza. Toda mulher é um pouco bruxa.

A arte de saber vem de dentro e não se explica. Sabemos quando estamos grávidas. Nem é preciso fazer o teste. Sabemos quando um homem vai nos deixar. Para o bem ou para mal, nós sabemos quando somos traídas.

A intuição, vulgo sexto sentido feminino não tem nada a ver com cismas. Não é porque queremos que a gente prevê a realização daquilo.

A bruxaria é arte antiga. A bruxaria, meu caro, é arte de mulher...

Minha mãe costuma dizer que quando conhecemos o homem da nossa vida, uma revelação acontece.

Aconteceu com ela.

Aconteceu comigo outro dia.

A tal revelação a qual se refere minha mãe, nada mais é do que a intuição feminina. Ela, bruxa mais antiga sabe que quando a gente encontra o pai dos filhos, o amante, o companheiro da vida, algo nos acontece.

Acontece, mas não se explica.

Eles estão desavisados. Eles nem desconfiam...

Ser mulher é, portanto, não anunciar ao outro o destino que se tem. Porque assim quer a vida. Eles não entenderiam.

Intuição feminina....