
Toda terça-feira era a mesma coisa. Levantava cedo, tomava banho e descia o bairro em direção à civilização. Na rua de baixo ouvia o barulho ensurdecedor da cidade que provavelmente, pensava ela, não dormira porque já gritava às 07 da manhã.
Antes de chegar ao ponto de ônibus, sempre, toda terça-feira, Cristina comprava uma garrafa de água mineral com gás que lhe custava dois Reais e cinquenta centavos. O dinheiro era estrategicamente separado e guardado na noite anterior no bolsinho de traz da carteira vermelha. À medida em que se aproximava do ponto de ônibus as portas dos edifícios se abriam e delas saiam gente. Tal qual formigas de formigueiros, cardume de peixes, ar comprimido numa bola de encher. Cristina pensava.
A atmofesra das terças-feiras cheirava a perfume. Barato. E enquanto tentava, -sem sucesso -distinguir o nome da essência ela subia três degraus acima, abria a boca e emitia o som de um "bom dia" ao condutor. Toda terça-feira. Pensava ela, dia de Oxum.
Lembrou que esquecera de acender a vela. Melhor assim porque senão a casa poderia pegar fogo. A mãe dela já havia alertado. Nem pôde completar o pensamento quando entrou uma senhora e ninguém cedeu o lugar. Cristina pensou então nos pais daqueles passageiros que não haviam lhe dado educação. Abriu a garrafa e bebeu um gole dágua. Quente e gasosa. Reclamou em pensamento mas ninguém pôde ouvir.
Quem eram aquelas pessoas mal educadas? Com o que trabalhavam? Quem, naquele lotação ia perder a vida naquela terça-feira 27 de agosto?
Se distraiu pensando na eventual morte daqueles que alí estavam quando o ônibus freiou e Cristina foi lançada ao colo de um estudante, uniformizado. O colo era quente embora a calça estivesse molhada. Olhou para o lado e sentiu vergonha da mulher. A gorda testemunhara a patética cena enquanto exibia o número 10 na camisa amarela, que Cristina se questionava a qual jogador pertenceria. Achou por bem fazer figa com os dedos. Afinal, a gorda torcia para o Brasil mas isso não a isentava de sentir inveja. Cristina se achou magra.
Levantou do colo, abriu a bolsa, checou as horas: 07h37. Sentiu medo não chegar à tempo ao encontro.
Puxou a corda que fez barulho. O condutor parou. Finalmente desceu do ônibus sem saber para onde iam os passageiros que alí ficaram...
Já Cristina, tinha um destino certo.
Ia ao psiquiatra.

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