segunda-feira, 7 de junho de 2010

Cinco Sentidos


Toda terça-feira era a mesma coisa. Levantava cedo, tomava banho e descia o bairro em direção à civilização. Na rua de baixo ouvia o barulho ensurdecedor da cidade que provavelmente, pensava ela, não dormira porque já gritava às 07 da manhã.

Antes de chegar ao ponto de ônibus, sempre, toda terça-feira, Cristina comprava uma garrafa de água mineral com gás que lhe custava dois Reais e cinquenta centavos. O dinheiro era estrategicamente separado e guardado na noite anterior no bolsinho de traz da carteira vermelha. À medida em que se aproximava do ponto de ônibus as portas dos edifícios se abriam e delas saiam gente. Tal qual formigas de formigueiros, cardume de peixes, ar comprimido numa bola de encher. Cristina pensava.

A atmofesra das terças-feiras cheirava a perfume. Barato. E enquanto tentava, -sem sucesso -distinguir o nome da essência ela subia três degraus acima, abria a boca e emitia o som de um "bom dia" ao condutor. Toda terça-feira. Pensava ela, dia de Oxum.

Lembrou que esquecera de acender a vela. Melhor assim porque senão a casa poderia pegar fogo. A mãe dela já havia alertado. Nem pôde completar o pensamento quando entrou uma senhora e ninguém cedeu o lugar. Cristina pensou então nos pais daqueles passageiros que não haviam lhe dado educação. Abriu a garrafa e bebeu um gole dágua. Quente e gasosa. Reclamou em pensamento mas ninguém pôde ouvir.

Quem eram aquelas pessoas mal educadas? Com o que trabalhavam? Quem, naquele lotação ia perder a vida naquela terça-feira 27 de agosto?

Se distraiu pensando na eventual morte daqueles que alí estavam quando o ônibus freiou e Cristina foi lançada ao colo de um estudante, uniformizado. O colo era quente embora a calça estivesse molhada. Olhou para o lado e sentiu vergonha da mulher. A gorda testemunhara a patética cena enquanto exibia o número 10 na camisa amarela, que Cristina se questionava a qual jogador pertenceria. Achou por bem fazer figa com os dedos. Afinal, a gorda torcia para o Brasil mas isso não a isentava de sentir inveja. Cristina se achou magra.

Levantou do colo, abriu a bolsa, checou as horas: 07h37. Sentiu medo não chegar à tempo ao encontro.

Puxou a corda que fez barulho. O condutor parou. Finalmente desceu do ônibus sem saber para onde iam os passageiros que alí ficaram...

Já Cristina, tinha um destino certo.

Ia ao psiquiatra.


sábado, 6 de março de 2010

A Regra


Acordamos cedo de uma noite mal dormida. O calendário marcava a data temida por nós. O segundo dia do terceiro mês do ano.

Não havia mais como retardar o parto. O dia estava coroando. Sem pelidural.

Nem eu nem Pablo sabíamos como sobreviver àquele que nos encarava.

O dia nos via, pela janela. Sabia de nós.

Começamos então a fazer a mala de quem ia partir. Para longe.

Pablo deixou-me a tesourinha de unhas, o carregador da câmera, o livro sobre photoshop. Levou com ele os pêlos do peito, a tatuagem de cobra e os dedos longos de quem toca piano.

E alí ficamos, na cama, imóveis. Um sobre o outro. O macho e fêmea no último coito, interrompido pelo dia prematuro que insistia em viver.

Sete horas da noite do segundo dia do terceiro mês do ano. Chegamos ao aeroporto e estava escuro, e chovia, e eu tinha cólica.

Pablo foi embora.

O dia finalmente morreu.

Acordei cedo de uma noite mal dormida.

Sinto alguma coisa entre as coxas.

Temo que seja ela.

A menstruação desceu.
















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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sem Fantasia



Nunca gostei de despedidas, sabe? E todo ano é a mesma coisa. A gente muda de idade, de calendário até que chega o carnaval e a gente também se despede.

É preciso guardar a fantasia. Esse ano mesmo espremi uma aeromoça na sacola de papel, do lado esquerdo do armário. Coitada.

Já assassinei também uma melindrosa, uma noiva e uma freira de carnavais passados. Todas convivem na sacola de papel. Do lado esquerdo do armário.

Ainda que armazenadas por um longo espaço de tempo, no escuro, cada uma das mulheres que fui, guarda uma lembrança.
Confete dentro da latinha, beijo na boca de amigo, carro de reportagem, infidelidade, anel de lata no dedo esquerdo, diabo com chifre que acende.
Dentre todas as lembranças que tive talvez a mais graciosa delas vai se embora agora em março.
O cozinheiro de chapéu e bigode negro se levanta.
Vai acabar.
Já escuto o barulho do avião.
Quarta-feira de cinzas.
A aeromoça está espremida no armário.
Não respira
Nunca gostei de despedidas.