
Acordamos cedo de uma noite mal dormida. O calendário marcava a data temida por nós. O segundo dia do terceiro mês do ano.
Não havia mais como retardar o parto. O dia estava coroando. Sem pelidural.
Nem eu nem Pablo sabíamos como sobreviver àquele que nos encarava.
O dia nos via, pela janela. Sabia de nós.
Começamos então a fazer a mala de quem ia partir. Para longe.
Pablo deixou-me a tesourinha de unhas, o carregador da câmera, o livro sobre photoshop. Levou com ele os pêlos do peito, a tatuagem de cobra e os dedos longos de quem toca piano.
E alí ficamos, na cama, imóveis. Um sobre o outro. O macho e fêmea no último coito, interrompido pelo dia prematuro que insistia em viver.
Sete horas da noite do segundo dia do terceiro mês do ano. Chegamos ao aeroporto e estava escuro, e chovia, e eu tinha cólica.
Pablo foi embora.
O dia finalmente morreu.
Acordei cedo de uma noite mal dormida.
Sinto alguma coisa entre as coxas.
Temo que seja ela.
A menstruação desceu.
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