sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sem Fantasia



Nunca gostei de despedidas, sabe? E todo ano é a mesma coisa. A gente muda de idade, de calendário até que chega o carnaval e a gente também se despede.

É preciso guardar a fantasia. Esse ano mesmo espremi uma aeromoça na sacola de papel, do lado esquerdo do armário. Coitada.

Já assassinei também uma melindrosa, uma noiva e uma freira de carnavais passados. Todas convivem na sacola de papel. Do lado esquerdo do armário.

Ainda que armazenadas por um longo espaço de tempo, no escuro, cada uma das mulheres que fui, guarda uma lembrança.
Confete dentro da latinha, beijo na boca de amigo, carro de reportagem, infidelidade, anel de lata no dedo esquerdo, diabo com chifre que acende.
Dentre todas as lembranças que tive talvez a mais graciosa delas vai se embora agora em março.
O cozinheiro de chapéu e bigode negro se levanta.
Vai acabar.
Já escuto o barulho do avião.
Quarta-feira de cinzas.
A aeromoça está espremida no armário.
Não respira
Nunca gostei de despedidas.