
Todo dia vinte e nove de outubro ele faz aniversário. R. não passou comigo nem um quarto da sua vida mas quando me deixou fez de mim uma mulher presa ao passado.
R. tinha quinze anos a mais do que eu. Sobrevivia da música que assoprava com força num insrumento de madeira.
Nunca compôs uma canção para mim.
Aquele homem mais velho também era pai. Um bom pai. O que me enchia de orgulho mesmo que a sua filha não fosse minha.
Aprendi com R. que na vida é preciso humor. Foi ele quem me ensinou a ser amada. E segui assim - aprendendo - por cinco anos.
Quando R. se foi, fez-se um silêncio.
Desconfio que me traiu. R. traiu os meus planos de menina moça.
A música de R. não foi a trilha sonora da minha vida como esperava.
Desde que nos separamos nunca mais o procurei em seu aniversário. Desde que R. foi para longe de mim nunca mais pronunciei o seu nome curto. Mas me pego sempre a pensar qual canção terá feito R. da vida. Seja ela qual for, depois da partida, aprendi a tocar uma música. E é essa canção que toco no meu violão, a cada dia 29 de outubro, de cada ano que passa.
A de feliz aniversário.
